Pandemia e autoestima

Atualizado: Mai 14


Reproduzo aqui na íntegra um texto adorável da Tati Bernardi, publicado na Folha de São Paulo de 20/10/20, que consegue traduzir exatamente como nos sentimos frente à demanda doméstica e as exigências impostas pela pandemia com o trabalho home office

Vale como uma provocação!



EU SOU BONITA, MAS ESTOU CANSADA

Tati Bernardi (20/10/20 - Folha)


Eu sou bonita, mas estou cansada. Penso que gostaria de ter camisetas com essa frase, em cores variadas, para usar todos os dias.


"Oi, tudo bem? Eu estava em uma reunião de roteiro superimportante, mas tive que parar pra encomendar um galão de água. Estamos sem água. E eu sou bonita, mas estou cansada." "Oi, tudo bem? Vim trazer a papelada do financiamento. Sim, estamos comprando o imóvel juntos, mas, enfim, eu vim sozinha resolver tudo. E eu sou bonita, mas estou cansada."


"Oi, vocês têm aquele iogurte com o desenho de uma fazendinha? É o único que a minha filha gosta. E eu sou bonita, mas estou cansada."


Ritinha acorda toda madrugada me chamando. Meu marido e eu chegamos à conclusão que é mais fácil eu ir porque, afinal, eu fui ontem e anteontem. E ela espera que isso se repita amanhã e depois de amanhã.


Não podemos mexer na rotininha dela. Esses dias fui atender ao seu chamado, e ela falou, bastante indignada: "Cê tá feia, mamãe". E eu queria ter um pijama com a frase "Eu sou bonita, filha, mas estou cansada".


Está puxado usar roupa de verão. Meu corpo tem o desenho do autodescaso. Não me sobra tempo ou saco pra fazer exercício. E eu respeito se você acha que um corpo pode ser bonito com qualquer forma.


E eu admiro se você milita a favor desse corpo que não queima calorias. Mas eu estou com medo de a camada de adiposidade do meu abdômen me causar problemas no coração. Porque não se cuidar é um veneno, e eu bebo dele todos os dias da minha vida sobrecarregada.


Meu cotidiano está dividido entre, depois de horas brincando e cuidando, descolar um ser humaninho delicioso da minha perna; resolver burocracias intermináveis, pois "meu cônjuge é artista"; trabalhar; trabalhar mais um pouco; fazer listas de papelaria, supermercado, farmácia, peixaria, feira... E, quando dá meia-noite, eu apago na cama como se nem 50 horas fossem acabar com a profunda exaustão que sinto.


A sua avó, que não labutava fora, dizia que cansava, lembra? Cuidar da casa? Ela estava certa. E, coitada, ela vivia mesmo acabada. Ela era linda, mas estava precisando de férias. Reza lá à noite pra ela e conta que você é médica, CEO, diretora, professora, babá, cozinheira, motorista de Uber. Que você trabalha feito uma camela. E, pra piorar, aquilo tudo que sua avó fazia ainda sobra pra você.


Daí, na terapia de casal, seu mozão diz que sente falta de quando você era leve e divertida. Que está de saco cheio de você viver tensa e reclamando de tudo. E que você não sabe se desligar e curtir.


Uma amiga me ligou na quarta, contando que o chão do boxe tem ficado cheio de tufos de cabelo depois que ela toma banho. Ela achou que o cachorro tivesse invadido o banheiro essa semana, mas era o cabelo dela. Ficamos em silêncio um tempo. Até que ela disse: "Às vezes eu sonho que enfio uma faca de churrasco nas costas do meu marido".


Meu amigo, meu anjo, meu docinho, sua esposa é ótima, é divertida, é bonita, mas está cansada. Vou fazer a camiseta "Eu sou uma deusa soberana, uma gênia imbatível, bonita pacas, mas estou cansada pra cacete". E o leitor macho da Folha se ofende com palavrão. Querido, caguei pra você. Você tem percebido que as mulheres estão cansadas? Que estão doidas pra gritar palavras chulas?


É preciso falar. É preciso bradar. É preciso escrever em caixa-alta no Twitter e fazer uma camiseta com letras neon. Quantas vezes, meu herói urbano, você parou seu trabalho para anotar "saco de lixo pra pia"? Quantas vezes, mister testosterona, você notou que as calças dos seus filhos estão ficando pula-brejo e se antecipou para comprar novas?


Você tem ideia do que é cagar todos os dias sem relaxar, pensando que estão acabando o lenço umedecido e as fraldas e as escovas de dentes e as pastas da Frozen e a sua saúde? Nunca mais eu caguei em paz, caro leitor que odeia quando eu escrevo "cagar".


Eu sou fina, eu sou inteligente, eu escrevo bem, mas eu estou cansada.


E você, também está cansada?

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